A influência do genótipo na resposta alimentar: personalização na dieta para doenças inflamatórias intestinais
Você sabia que os alimentos, consumidos por diferentes pessoas, podem resultar em efeitos benéficos ou adversos dependendo do genótipo individual? Essa variação tem fundamentação científica em estudos recentes e representa um avanço significativo para a medicina nutricional personalizada.
Hoje, é amplamente reconhecido que cada organismo possui individualidades genéticas e bioquímicas que determinam respostas específicas a fatores externos, como a alimentação. Isso explica por que dietas que promovem emagrecimento e bem-estar para alguns, podem não funcionar ou até prejudicar outros. Não existe, portanto, um modelo único de alimentação que garanta bons resultados para todas as pessoas.
Para exemplificar essa diferença de respostas, vamos explorar um estudo de revisão que abordou a alimentação personalizada, especificamente no contexto da doença inflamatória intestinal (DII), além de discutir as intolerâncias alimentares relacionadas a variantes genéticas. Este entendimento é crucial para expandir o olhar sobre abordagens nutricionais individualizadas, aumentando a eficácia dos tratamentos.
O impacto das intolerâncias alimentares influenciadas pelo genótipo
Intolerâncias alimentares são reações adversas aos componentes da dieta que não envolvem o sistema imunológico, diferindo das alergias. Muitas vezes, essa sensibilidade varia conforme o perfil genético do indivíduo.
Intolerância à lactose e o papel da genética
A sensibilidade aos laticínios é uma das intolerâncias mais comuns na população geral. Em pessoas com DII, essa sensibilidade varia entre 10% e 20%, e está fortemente ligada à redução da atividade da enzima lactase após a infância. Isso acontece porque a enzima lactase, responsável pela digestão da lactose, tende a diminuir sua produção após o desmame, fenômeno presente na maioria dos mamíferos.
Contudo, em humanos, essa atividade pode persistir na vida adulta em determinados indivíduos devido a uma característica genética. Por exemplo, na Europa, a presença do alelo T-13910 no gene da lactase (LCT) é a principal mutação responsável pela persistência da atividade da lactase, permitindo o consumo de lactose sem desconforto. Já em regiões como África e Oriente Médio, outras mutações genéticas desempenham esse papel, evidenciando a complexidade e diversidade genética associada à digestão da lactose.
Doença celíaca e intolerância ao glúten: ligação genética essencial
A doença celíaca é um distúrbio autoimune desencadeado pelo consumo de glúten, uma proteína presente em diversos cereais como trigo, cevada e centeio. A predisposição genética para essa doença está associada a variantes específicas nos genes do complexo de histocompatibilidade, principalmente HLA-DQA1 e HLA-DQB1.
Estes genes codificam proteínas que desempenham papel fundamental na regulação da resposta imune, e certas variantes estão ligadas diretamente à maior probabilidade de desenvolvimento da doença celíaca. Por isso, é comum que a investigação clínica inclua testes sorológicos específicos para anticorpos relacionados, que, embora não definitivos para todos os casos, ajudam a diagnosticar essa condição.
Já a sensibilidade ao glúten não-celíaca consiste em uma situação em que indivíduos apresentam sintomas semelhantes, porém sem os marcadores imunológicos clássicos da doença celíaca. No momento, não há teste diagnóstico específico para essa condição, de modo que a melhor abordagem recomendada é a exclusão de alimentos que contenham glúten da dieta, observando a evolução clínica.
Dieta low FODMAPs e sua relação com a microbiota e genoma intestinal
Uma estratégia que tem ganhado destaque no controle dos sintomas da síndrome do intestino irritável (SII) e, também, da DII é a dieta reduzida em FODMAPs. Essas substâncias são oligossacarídeos, dissacarídeos, monossacarídeos fermentáveis e polióis presentes em muitos alimentos industriais e naturais. Elas podem ser fermentadas rapidamente por bactérias no intestino, causando desconfortos abdominais.
Reduzir os FODMAPs mostrou ser eficaz na melhora dos sintomas clínicos, porém estudos recentes indicam que essa restrição pode modificar a composição da microbiota intestinal, incluindo alterações no genoma do microbioma e diminuição de bactérias benéficas, como o Bifidobacterium.
Como pessoas com DII já apresentam disbiose na microbiota, isso pode exigir cuidado adicional durante o tratamento, com suplementação e monitoramento microbiológico para garantir um equilíbrio capaz de contribuir para uma melhor resposta terapêutica e qualidade de vida.
Individualidade genética como peça-chave na condução do tratamento nutricional
O tratamento eficaz dos distúrbios ligados à alimentação requer, antes de tudo, um entendimento aprofundado das características do paciente. Isso envolve uma anamnese detalhada, avaliação de exames laboratoriais e histórico clínico completo.
Com esse conhecimento, o profissional de saúde pode adotar uma abordagem nutricional personalizada, levando em consideração a influência dos genes e das características bioquímicas, resultando em intervenções mais assertivas e seguras para o indivíduo.
Mais do que seguir modismos alimentares, esse caminho aponta para uma nutrição baseada na ciência, que respeita a singularidade de cada pessoa e oferece soluções que promovem a saúde em suas múltiplas facetas.